Quaresma: Tempo Favorável

Caríssimos Irmãos e Irmãs, iniciamos a Quaresma, chamado de tempo “forte”, de tempo “favorável”. A perspectiva é preparar, de forma intensa e privilegiada, a Páscoa do Senhor, com um coração inteiramente voltado para Ele. Para poder iniciar seriamente esse tempo é necessário ter consciência da nossa situação pessoal e também social e eclesial. Até que não sei onde estou, para onde vou, o que estou fazendo da minha vida, é difícil enfrentar um tempo marcado pela conversão de forma séria e eficaz.

O tempo é favorável se quisermos colaborar com Deus. Ele está disposto a mudar as nossas situações desde que eu desejo e procuro reconhecer minhas faltas. Sua misericórdia, compreensão e paciência não tem limites. Coragem, portanto, e mãos à obra para transformarmos, à luz do Evangelho, aquilo que não está dando certo.

Nesta perspectiva se insere o tema da Campanha da Fraternidade que já estudamos juntos e que agora deve encontrar respostas, para que à violência se substitua por uma cultura de paz, dialogo, justiça, igualdade, respeito, acolhida, perdão etc. Sobre isso não quero agora fazer reflexões porque em cada comunidade isso é previsto a ser feito.

Me interessa somente sublinhar alguns aspectos fundamentais e que são pontos de partida para uma verdadeira mudança e conversão, que corre o risco de ser engolida por outros interesses e temas.

O evangelho faz três exemplos emblemáticos e que devem ser ampliados em nossa espiritualidade cotidiana: oração, jejum, esmola.

  1. Quando falamos de oração, não entendemos somente as orações, mas sim uma relação com Deus que deve ser recuperada integralmente e com dignidade. Deus não é “um divino panaca”, mas é o Pai, o Amor, a fonte da Vida. A relação com Ele não pode ser movida pelas necessidades, pelos medos que nos dominam, mas pelo amor. Se duas pessoas não falam amigavelmente entre elas, algo que não funciona existe naquele relacionamento. Um filho que não dialoga com o Pai que filho é?! No tempo da Quaresma, portanto, é necessário programar momentos intensos de oração, seja em nível pessoal como familiar e comunitário. É preciso avançar um pouco mais sem se apegar de forma estranha ao que sempre se fez. O desafio deve ser resolvido sobretudo em nível pessoal. Mas também as comunidades cristãs devem ser um pouco mais criativas e ousadas neste sentido. O que custa programar momentos intensos de oração para a comunidade; retiros espirituais populares; a lectio divina etc.
  2. O Jejum é um meio para colocar limites, freios à nossa insaciável vontade de fazer o que queremos, como é também um meio para recuperar o que se perdeu. Neste aspecto é preciso de muita sabedoria, disciplina e fortaleza de espírito. Seria fatal limitar o tema do jejum somente à quarta feira de cinza e à sexta feira santa. E além do mais, o jejum não se limita aos alimentos. Há muitas outras realidades que hoje precisam silenciar para que não nos dominem e escravizem, a começar dos meios de comunicação social. Cada um se programe e veja com lucidez e coragem o que deve cortar em sua vida para realizar a conversão e o acreditar no Evangelho.
  3. A esmola é a necessidade da partilha, da solidariedade, da comunhão, da gratuidade. Sem amor fraterno e solidário não é possível se chamar de filhos do mesmo Pai. É difícil demonstrar a conversão que se realizou a partir do nosso interior. “Se não amo o irmão que vejo, como posso amar Deus que não vejo!” O tema da Campanha da Fraternidade será um estímulo muito precioso para desencadear mecanismos de comunhão, que neutralizem a violência de qualquer maneira como for praticada.

Também neste assunto crucial é preciso se “programar”. Os campus de reflexão são múltiplos e complexos, pessoais e comunitários, sociais e eclesiais. É possível um mundo diferente se queremos construi-lo.  A Quaresma nos dá um estímulo a mais.

Queridos Irmãos e Irmãs que sejamos conscientes da oferta extraordinária que Deus nos faz e não percamos tempo. A realidade é confusa, em todos os níveis: político, econômico, social, mas sobretudo familiar e eclesial. Somente pessoas novas fazem um mundo novo. É a hora de ter coragem e querer mesmo sonhar, apesar de tudo. 

 

                                                                           Dom Carmelo Scampa

                                                                                 Bispo diocesano