Nota para reflexão teológica ao Povo de Deus que está em São Luís de Montes Belos

Caríssimos Irmãos e Irmãs, levando em consideração os últimos acontecimentos que pegaram a todos de surpresa e, no meio deles, a existência de um grupo chamado REDENÇÃO e também percebendo que o problema de fundo é teológico, gostaria de desenvolver, junto com o Presbitério Diocesano, sem esgotar a questão, três pontos: o que entendemos por Igreja, os carismas reconhecidos pela Igreja e, por fim, algumas palavras a partir do “fenômeno” Grupo Redenção.

Reconheço e não desvalorizo o desejo pessoal da procura da santidade dos participantes e a boa fé de tantos membros do grupo.

Porém, há algo que me obriga a pedir uma seria reflexão por parte de todos, antes, se for o caso, de recorrer a medidas canônicas.

  1. A teologia sobre Igreja, Carismas, Magistério, Moral, não estão sempre em sintonia com a doutrina da Igreja católica.
  2. Constituiu-se uma hierarquia paralela que tem seu eixo principal no Sr. José de Paracatu (MG) que se acha investido diretamente por Deus em tudo o que faz.
  3. Praticam-se curas mais na linha da magia que da fé, com rituais estranhos, constrangedores e gravemente desrespeitosos da dignidade da pessoa humana, sobretudo das mulheres, até o ponto de algumas delas recorrer ao Ministério Publico.
  4. Se faz uso do óleo com estrema facilidade, confundindo e, de certa forma, banalizando seu sentido sacramental.

A presente nota quer considerar somente três pontos para a séria reflexão de todos nós.

Levando em consideração os últimos acontecimentos que pegou a todos de surpresa e, no meio deles, a existência de um grupo chamado Redenção e também percebendo que o problema de fundo é teológico, gostaria de desenvolver, sem esgotar a questão, três pontos: o que entendemos por Igreja, os carismas reconhecidos pela Igreja e, por fim, algumas palavras a partir do ‘fenômeno’ Grupo Redenção:

A Igreja

 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (I Pd 2,5).

A Igreja — povo de Deus peregrino no tempo — não nasce da convergência de interesses humanos ou do ímpeto de um coração generoso, mas é dom do alto, fruto da iniciativa divina. Pensada desde sempre no plano do Pai, foi por ele preparada na história da aliança com Israel, para que, cumpridos os tempos, fosse fundada graças à missão do Filho e à efusão do Espírito Santo, em Pentecostes. Obra de Deus (1 Cor 3,9b), antes de tudo, e não do ser humano, a Igreja é, em sua natureza mais profunda, inacessível a uma visão puramente humana. Ela é mistério, tenda de Deus entre os homens, fragmento de carne e de tempo em que o Espírito do Eterno veio morar. A Igreja não se inventa ou produz; é recebida, é dom. Nasce do acolhimento, por meio do batismo em nome da Trindade, o Espírito une a Cristo os batizados e os enriquece com os dons (ou carismas), que o Pai preparou para cada um deles.

Na Igreja a gente não começa sozinho e continua sozinho. “Nós não somos Igreja por escolha pessoal, mas por vocação. Fomos precedidos pela misericórdia de Deus. Fomos convocados em vista de Cristo e por Cristo para viver a experiência da comunhão trinitária” (Teologia da Igreja Particular, 2008, p. 4). O cristão ou batizado é fruto de uma Igreja que trabalha junto, cooperadores de Deus (1 Cor 3,9a), presidida por um bispo no tempo e no espaço. Toda vez que um cristão faz sozinho, erra. É um pequeno tijolo (pedra viva: IPd 2,5) que só funciona porque tem outro do lado, embaixo e um dia terá outro acima para continuar a boa obra que Cristo começou (FI 1 ,6).

Carismas

Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para utilidade comum (ICor 12,7) ou edificação do corpo de Cristo (Ef 4,12).

Olhando para a Igreja-esposa do Pai em Jesus, Paulo vê nela vários “carismas”, isto é, dons da presença amorosa do Abbá, coisa boa, por conseguinte. No entanto, pode haver traições/desvios. Havia confusões por causa destes “carismas”. Por quê? Porque, ao invés de colocá-los a serviço da unidade fraterna em toda a Comunidade, alguns os usavam para aparecer, para impor-se, para mostrar-se superiores aos demais, causando invejas, ciúmes e discórdias no interior da vida da Igreja-Comunidade (Carismas e ministérios, 2013). Desde o início, o Senhor encheu a Igreja com os dons do seu Espírito, tornando-a assim sempre viva e fecunda. O que podemos pensar então?

  • antes de tudo, o carisma é confiado pela Igreja a uma pessoa ou grupo, ou seja, será a Igreja a reconhecer ou confirmar’ o carisma que o Espírito confere à pessoa ou ao grupo. Portanto, o carisma não é um dom ‘pessoal Nesse sentido, é muito oportuna a reflexão do papa Francisco2 : (…) Tantas vezes nós ouvimos pessoas que dizem: Eu tenho esta qualidade, eu sei cantar muito bem. E ninguém tem a coragem de dizer: É melhor que fique calado, porque atormenta todos quando canta!. Ninguém pode dizer: Eu tenho este carisma. É dentro da comunidade que desabrocham e florescem os dons dos quais o Pai nos enche; e é no seio da comunidade que se aprende a reconhecê-los como um sinal do seu amor por todos os seus filhos (…)
  • os carismas são dados aos cristãos não para enfeitar a vida cristã ou para determinar quem possui o Espírito Santo em porção maior do que os outros. Assim, o carisma não é uma prerrogativa de uma elite, mas como a vocação privilegiada de todo o povo de Deus;
  • o carisma é, na verdade, um chamado para o Ministério, para o serviço e para edificação/construçäo/restauração (consertar ossos quebrados: katartízo [Ef 4, 12a]) da Igreja, corpo de Cristo. A Igreja, através de todos os seus membros, exercendo os carismas, conserta as quebraduras e as machucaduras de si mesma, participando, assim, do ministério pastoral na preparação para o desempenho do seu serviço (Ef 4,12b). Quando cada membro trabalha seu carisma coordenado, a edificação produzirá na vida da Igreja e de seus membros a unidade da fé (Ef 413a), o pleno conhecimento de Deus (Ef 4,13b), a maturidade cristã (4,13c), a firmeza doutrinária (Ef 4,14) e o crescimento equilibrado (Ef 4, 15-16).
  • O mesmo Espírito que dá diferença de carismas faz a unidade da Igreja. É sempre o mesmo Espírito, Espírito de amor. Aliás, o carisma dos carismas para Paulo é a caridade (ICor 13). “No coração da Igreja eu serei o amor” (Santa Teresa do Menino Jesus). E todos temos este carisma: a capacidade de amar.

Centralidade do eu: Milagres, propaganda mística e grupo (redenção)

Atualmente se diz que o que está em jogo em algumas expressões religiosas não é Deus, não é uma comunidade fraterna, não é a prática de caridade, mas o individualismo, o eu. Busca-se a autopromoção e realização, religiosidade sem conteúdo preciso, sem credo; no fundo, ‘Deus’ (ou a visão que se tem dele) não tem importância a não ser enquanto ‘legitimador’ de práticas de curas físicas e psíquica. Nesse panorama que surge alguém que se intitula ‘profeta’, ‘inspirado’, ‘chamado’ por Deus e mensageiro dele na terra. Não age por ofício (ou em nome da Igreja), mas sim por inspiração, isto é, se sente possuído pela divindade, podendo exprimir assim o que ela lhe revela e confia. Essa espécie de ‘guru’ age convictamente e sente que o todo-poderoso o escolheu para uma missão divina: fazer milagres e curas por meio de rituais ‘revelados’, ditar comportamentos aos que participam do grupo.

São classificados em duas categorias: os fervorosos e os dissimulados. Os fervorosos são facilmente identificados e são conhecidos popularmente como ‘chatos’ que querem converter todos os que cruzam seu caminho, muitas vezes aos gritos. Os dissimulados são muito amigáveis, falam muito bem e chegam a passar a vida sem que muitos percebam seu fanatismo disfarçado entre suas palavras de incentivo. Os observadores notam claramente que esta categoria criada em TODAS as religiões se prolifera entre grupos cada vez maiores de pessoas que são enganadas com a falsa boa intenção em ser um exemplo de prática aos demais. Porém, todas as suas falas são para vencer a corrida da ‘conversão imediata’, onde outra vez pessoas que passam por dificuldades são usadas e transformadas em mais um número. O prazer de um fanático é impor sua opinião usando a religião como fachada e fazem isso sem remorso!

Tudo indica que o assim chamado ‘Grupo Redenção’ que veio à tona esses dias na Diocese, vá de encontro com essa segunda categoria. Além de ter um mentor que se sente o ‘mensageiro’ de Deus, o mesmo precisa que outras pessoas acreditem nele e também assumam suas práticas morais, fardos pesados e seu modo de entender a religião. O mesmo cria em torno de si adeptos, uma espécie de fã-clube pessoal que o defende e que cumpre à risca os ditames, às vezes, por ameaças que clamam aos céus.

O número de adeptos em torno da pessoa que se diz ‘revestida’ de poder divino, a busca constante por milagreiros, muletas e práticas não aprovadas pela Igreja demonstram a fragilidade teológica 4 e preocupante do nosso povo. Vem à mente o comportamento dos habitantes de Nazaré: não querem um Jesus libertador (LC 4, 14-21: libertar os presos, anular a pobreza, destruir as prisões, curar os cegos e surdos, fazer acontecer o ano da graça do Senhor); tentam precipitá-IO de um monte! Os acontecimentos recentes, em nossas Comunidades reais, demonstram que não somos diferentes dos habitantes de Nazaré.

Diante de tudo isso, as pessoas que participam do ‘Grupo Redenção’ deverão fazer um exame de consciência sério e colocar à prova os que dizem ser apóstolos e não o são (Ap 2,2); e depois retornar ao primeiro amor (Ap 2,4): voltar a ser e sentir-se Igreja, corpo de Cristo, usar os carismas para edificação e curas da comunidade Eclesial, acolher o rico e seguro patrimônio do Evangelho.

 

ass

 

1 Gaudium et Spes 12.

² Catequese do Papa Francisco sobre os carismas na Igreja. 1 0 de outubro de 2014.

³Para os estudiosos acontece um fenômeno de reação ao mundo ‘contaminado’ e ‘pecaminoso’ por partes de grupos: Se de um lado há, na modernidade líquida, uma extrema liberdade sexual entre parceiros desde bem cedo. Por outro, em reação a tais desmandos, o mesmo interesse pelo eu se expresse no traço religioso de grupos da virgindade, da pureza, de nova e segunda inocência. São práticas inspirados pelos profetas e gurus desses grupos!

4A fé na pessoa de Jesus, pertença a uma comunidade-lgreja, a riqueza dos sacramentos, enfim.