Solenidade de Corpus Christi

 

Caríssimos Amigos e Amigas,

 A Igreja celebra hoje a solenidade da festa do Corpo e Sangue de Cristo. É o sacramento da presença permanente e real de Cristo que na derradeira ceia, através do pão e do vinho disse: “isto é o meu Corpo…Isto é o meu Sangue ” e acrescentou “fazei isto em memória de mim”.Corpus-Christi

Não é fácil compreender a Eucaristia! É muito fácil reduzi-la a celebração, simples rito e nada mais. Porque não é fácil entender a Eucaristia? Porque significa entrar na logica radical do amor-entrega, o que Jesus fez na sua paixão e morte de cruz, dando a vida: “Prova de amor maior não há que dar a vida pelos irmãos”. Este gesto, que se tornou fonte e ponto mais alto da vida cristã, o entende somente quem superou os vários egoísmos e egocentrismos da vida e é capaz de se tornar dom gratuito para os outros.

A Eucaristia, portanto, é a atualização sacramental da paixão e da morte de Jesus, aqui e agora, por nós homens e mulheres desta época. Se a gente pensa bem, participar da missa é coisa seríssima e tem consequências mais do que concretas.

Infelizmente “perdemos a memória” e espiritualmente somos todos caducos e envelhecidos. As grandes obras de Deus, da libertação do povo escravo no Egito, à formação do novo povo de Deus, a todas as intervenções divinas na história até chegar à paixão e morte do Filho Amado, não estão presentes em nossa espiritualidade, portanto, quando o essencial se perde, entram os detalhes e as picuinhas litúrgicas, desvirtuando desta maneira o “sublime sacramento”.

Naturalmente, além da memória da entrega salvadora de Cristo, a Eucaristia evoca a comunhão, a unidade como meta a ser construída e alcançada diariamente. O Altar recorda a mesa onde os irmãos se encontra para a refeição e ali constroem laços familiares. Querem perder ou enfraquecer esta dimensão é banalizar a Eucaristia.

Evidentemente a Eucaristia evoca outros aspectos importantes. como, por exemplo,  a garantia da gloria futura. Não é por acaso que em cada celebração lembramos isso: “Anunciamos a tua morte….enquanto esperamos  vossa vinda”. É o maranatá, o “vinde Senhor Jesus” que gritavam os primeiros cristãos em cada celebração eucarística.

O dia de hoje seja, portanto, um dia de meditação, de recordações, de adoração. Quem quer conhecer melhor a doutrina eucarística pegue o Catecismo da Igreja católica e, em síntese, terá os elementos principais do que a Eucaristia é. Relembremos hoje o dia de nossa Primeira Comunhão também, vale a pena.

Mas como não é fácil entender a Eucaristia é também fácil desvirtua-la e reduzi-la a detalhes  litúrgicos que acabam criando divisões  inúteis dentro da comunidade cristã. Nossa Diocese, infelizmente, com desejos nobres de valorizar a Missa, as vezes acabou entrando na lógica do “pode não pode” de rubricas rituais necessárias a serem respeitadas, mas que não são fim a si mesmas.

Nunca inverter o essencial com o acessório! Embora nestes últimos anos a qualidade das celebrações litúrgicas tenha descambado notoriamente. É preciso, antes de mais nada, sublinhar a essência teológica do mistério celebrado. Quando isso é garantido teremos as condições propícias para compreender o sentido concreto, entendido como concretização teológica, das rubricas litúrgicas que nada mais e nada menos querem preservar o “sublime Sacramento” de arbitrariedades, banalizações, populismos desnecessários.

 

 Dom Carmelo Scampa

                                                 Bispo diocesano