ENCARNAÇÃO DO VERBO E VANGLORIA

Queridos Irmãos e Irmãs, iniciamos o tempo do ADVENTO, tempo de espera do “Sol que nasce do Oriente” e vem nos salvar. É um dos tempos fortes da liturgia e que nos proporciona inúmeras possibilidades de reflexão.

 

  1. “O Verbo se fez carne” (João 1, 14) e habitou entre nós. A encarnação da Palavra eterna do Pai fala sobre o movimento de rebaixamento de Deus que vem até nós. Por isso, Paulo, na carta aos Filipenses, diz que apesar da natureza divina, Cristo se esvaziou a si mesmo, tornando-se semelhante a nós em tudo, fora no pecado. O tempo litúrgico iniciado, constantemente, lembra esse processo de esvaziamento de quem, embora seja a “plenitude”, embora “tudo seja feito por Ele e para Ele”, faz-se pequeno, insignificante, despercebido, nasce num lugar de animais, se manifesta a pastores, vive uma vida comum como “filho do carpinteiro”, um de nós. Quando esta realidade não é banalizada ou reduzida à matéria de palestras e pregações que não servem para ninguém, acaba sendo provocadora e questiona nossa espiritualidade. Vários santos cristãos perceberam isso e viveram de forma exemplar e heroica. É a Palavra eterna, pela qual tudo foi feito, que se fez pequena e nunca assumiu a mania de grandeza ou atitudes semelhantes. Durante o Advento, teremos motivos, tempos e possibilidades para meditar sobre a realidade do Verbo encarnado.
  2. Jesus passa por trinta anos batidos sendo simplesmente chamado “como filho do carpinteiro”, totalmente despercebido, embora possuidor de uma sabedoria que confundia os sábios: lembrem-se dele entre os doutores do Templo ainda adolescente. Trinta anos de escondimento em trinta e três de vida não é pouca coisa! O conjunto da vida de Jesus é vida de Redentor, de Salvador, de Messias. Ele não é Salvador da humanidade somente nos três anos de vida pública. Deus não salva através de eventos estrondosos, mas através de um cotidiano chato, rotineiro, repetitivo. Na lei da encarnação – que não é somente o momento do nascimento do Verbo, mas sua a existência inteira – há um recado fortíssimo e não equivocável sobre como e onde deve ir à espiritualidade do discípulo. Seria bom pensar profundamente sobre o assunto.
  3. Diante da atitude de Cristo humilde e pobre, desconhecido e despercebido gostaria que pudéssemos refletir sobre uma atitude muito frequente entre nós: a vangloria, o envaidecimento louco que toma conta de tantas pessoas de Igreja. Sempre me chamou a atenção aquela passagem de João 5, 44 onde se lê: ” Como podeis crer vós que recebeis gloria uns dos outros”. Eu te louvo para que você me louve… esta atitude leva a ser mentiroso, falso, bajulador, a não dizer a verdade para não desagradar e daí por adiante. Sobre o assunto conversava profundamente e com liberdade o Card. Martini uns anos atrás e recentemente voltou no mesmo assunto Papa Francisco, referindo-se a pessoas de Igreja. São Bernardo chamava a vangloria de “mal sutil, veneno secreto, peste oculta, fazedora de enganos, mãe da hipocrisia, da inveja, fonte de vícios, ferrugem das virtudes, verme roedor da santidade, cegueira do coração que troca os remédios em doenças e faz da medicina causa de cansaço” (Sermão VI em Psalm). É o que ainda me lembro de minha antiga formação seminarística. É triste se deparar com pessoas que se acham os salvadores da pátria, que depois de assumirem determinada tarefa tudo mudaram o mundo, a diocese, a paróquia, a pastoral, o movimento… não são mais os mesmos… Coitados! O pior é que encontram o número suficiente de bajuladores, muitas vezes carreiristas, que os apoiam e engrandecem a vaidade.
  4. O Verbo se humilhou até não parecer nem gente, diz Isaías. O vanglorioso se envaide até parecer bom, indispensável, necessário. Seria bom que o tempo de Advento, com suas propostas litúrgicas pudesse nos ajudar a aprender a humildade, a insignificância que faz o ser humano grande. Somente Deus é Deus. Seria bom que nos questionássemos sobre que Paulo pergunta aos Corintos: “O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu porque se envaide como se isso não fosse verdade?” (1 Cor 4, 7). Quem não atribui a Deus a gloria que recebeu é “um ladrão.” É pelo menos o que dizia Santo Agostinho. O vanglorioso é a pessoa que” semeia vento e colhe tempestade”, para usar as palavras bíblicas.

Que o tempo do Advento nos ajude a sermos como Cristo que “de rico que era se tornou pobre”; que nunca atribuiu a si a gloria que Pai lhe deu. O futuro é dos humildes, não dos prepotentes, dos sabidos segundo a carne, dos espertalhões.

 

Bispo diocesano

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Dom Carmelo Scampa