Iniciando a Quaresma

Iniciando a Quaresma

Caríssimos Irmãos e Irmãs, o tempo da Quaresma chegou e, decididamente, somos convidados a caminhar rumo à Páscoa, preparando o mistério mais profundo da nossa vida: a morte e ressurreição de Jesus, fonte e ponto mais alto de toda a vida cristã.
São simples e bonitas as orientações que a liturgia oferece para viver positivamente o tempo quaresmal: ORAÇÃO, ESMOLA, JEJUM.
1. A oração nada mais é que a redescoberta da relação filial, instalando com Deus uma familiaridade íntima, feita de escuta e diálogo. Quando Deus é Deus, se torna espontâneo procurá-lo, ouvi-lo, estar com ele. O tempo da Quaresma é tempo forte para isso, tempo para intensificar a oração pessoal, a oração em família e a oração na comunidade cristã, participando das numerosas propostas que cada paróquia faz neste período.
O Evangelho valoriza muito a oração íntima, que se dá no profundo do coração e que somente Deus vê.
2. A Esmola é também uma pista importantíssima a ser praticada, sinal de conversão, de gratuidade e de partilha. Quem sabe abrir os olhos percebe a urgência disso: quantas pessoas necessitadas ao nosso redor! A esmola não se esgota somente em dar um dinheiro ao pobre, mas é dar o que nós temos de nós mesmos ao outro. Terminamos, faz pouco tempo, o Ano da Misericórdia em que nos foram lembradas as sete obras de misericórdia corporal e as sete obra de misericórdia espiritual. Praticar a esmola significa partilhar gratuitamente com o outro que precisa o que temos e o que somos. Quem não sofre de miopia espiritual percebe onde estão as urgências mais sérias a serem enfrentadas.
3. O Jejum é também uma proposta bíblica oferecida a todos. Não seria bom reduzir o jejum a simples abstenção de alimentos. A Igreja nos obriga a isso somente na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. Quantas possibilidades para jejuar temos! Renunciando ou disciplinando melhor o uso dos meios de comunicação, por exemplo, controlando a língua, adquirindo uma praxe de vida mais silenciosa e menos barulhenta! Nossa fantasia é criativa e podemos fazer as escolhas que mais nos ajudam a deixar de lado tudo aquilo que atrapalha.
Naturalmente será acompanhando cada dia das propostas bíblicas, sobretudo da Missa, a partir das quais poderemos adquirir as pistas necessárias para viver intensamente a Quaresma.
Não esqueçamos também que a Igreja no Brasil cada ano nos apresenta um tema para ser meditado, estudado e encaminhado. Neste ano a Campanha da Fraternidade convida a considerar “os Biomas brasileiros e a defesa da vida”.
Cultivar e guardar a criação é nossa responsabilidade (Gn 2, 15). Convido cada comunidade, grupo, pastoral, movimento presente na Diocese a estudar o Texto-base da Campanha da Fraternidade 2017, seguindo as orientações claras que a CNBB nos oferece.
A conversão passa através de ações concretas e sociais que não podemos colocar em segundo lugar.

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ENCARNAÇÃO DO VERBO E VANGLORIA

ENCARNAÇÃO DO VERBO E VANGLORIA

Queridos Irmãos e Irmãs, iniciamos o tempo do ADVENTO, tempo de espera do “Sol que nasce do Oriente” e vem nos salvar. É um dos tempos fortes da liturgia e que nos proporciona inúmeras possibilidades de reflexão.

 

  1. “O Verbo se fez carne” (João 1, 14) e habitou entre nós. A encarnação da Palavra eterna do Pai fala sobre o movimento de rebaixamento de Deus que vem até nós. Por isso, Paulo, na carta aos Filipenses, diz que apesar da natureza divina, Cristo se esvaziou a si mesmo, tornando-se semelhante a nós em tudo, fora no pecado. O tempo litúrgico iniciado, constantemente, lembra esse processo de esvaziamento de quem, embora seja a “plenitude”, embora “tudo seja feito por Ele e para Ele”, faz-se pequeno, insignificante, despercebido, nasce num lugar de animais, se manifesta a pastores, vive uma vida comum como “filho do carpinteiro”, um de nós. Quando esta realidade não é banalizada ou reduzida à matéria de palestras e pregações que não servem para ninguém, acaba sendo provocadora e questiona nossa espiritualidade. Vários santos cristãos perceberam isso e viveram de forma exemplar e heroica. É a Palavra eterna, pela qual tudo foi feito, que se fez pequena e nunca assumiu a mania de grandeza ou atitudes semelhantes. Durante o Advento, teremos motivos, tempos e possibilidades para meditar sobre a realidade do Verbo encarnado.
  2. Jesus passa por trinta anos batidos sendo simplesmente chamado “como filho do carpinteiro”, totalmente despercebido, embora possuidor de uma sabedoria que confundia os sábios: lembrem-se dele entre os doutores do Templo ainda adolescente. Trinta anos de escondimento em trinta e três de vida não é pouca coisa! O conjunto da vida de Jesus é vida de Redentor, de Salvador, de Messias. Ele não é Salvador da humanidade somente nos três anos de vida pública. Deus não salva através de eventos estrondosos, mas através de um cotidiano chato, rotineiro, repetitivo. Na lei da encarnação – que não é somente o momento do nascimento do Verbo, mas sua a existência inteira – há um recado fortíssimo e não equivocável sobre como e onde deve ir à espiritualidade do discípulo. Seria bom pensar profundamente sobre o assunto.
  3. Diante da atitude de Cristo humilde e pobre, desconhecido e despercebido gostaria que pudéssemos refletir sobre uma atitude muito frequente entre nós: a vangloria, o envaidecimento louco que toma conta de tantas pessoas de Igreja. Sempre me chamou a atenção aquela passagem de João 5, 44 onde se lê: ” Como podeis crer vós que recebeis gloria uns dos outros”. Eu te louvo para que você me louve… esta atitude leva a ser mentiroso, falso, bajulador, a não dizer a verdade para não desagradar e daí por adiante. Sobre o assunto conversava profundamente e com liberdade o Card. Martini uns anos atrás e recentemente voltou no mesmo assunto Papa Francisco, referindo-se a pessoas de Igreja. São Bernardo chamava a vangloria de “mal sutil, veneno secreto, peste oculta, fazedora de enganos, mãe da hipocrisia, da inveja, fonte de vícios, ferrugem das virtudes, verme roedor da santidade, cegueira do coração que troca os remédios em doenças e faz da medicina causa de cansaço” (Sermão VI em Psalm). É o que ainda me lembro de minha antiga formação seminarística. É triste se deparar com pessoas que se acham os salvadores da pátria, que depois de assumirem determinada tarefa tudo mudaram o mundo, a diocese, a paróquia, a pastoral, o movimento… não são mais os mesmos… Coitados! O pior é que encontram o número suficiente de bajuladores, muitas vezes carreiristas, que os apoiam e engrandecem a vaidade.
  4. O Verbo se humilhou até não parecer nem gente, diz Isaías. O vanglorioso se envaide até parecer bom, indispensável, necessário. Seria bom que o tempo de Advento, com suas propostas litúrgicas pudesse nos ajudar a aprender a humildade, a insignificância que faz o ser humano grande. Somente Deus é Deus. Seria bom que nos questionássemos sobre que Paulo pergunta aos Corintos: “O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu porque se envaide como se isso não fosse verdade?” (1 Cor 4, 7). Quem não atribui a Deus a gloria que recebeu é “um ladrão.” É pelo menos o que dizia Santo Agostinho. O vanglorioso é a pessoa que” semeia vento e colhe tempestade”, para usar as palavras bíblicas.

Que o tempo do Advento nos ajude a sermos como Cristo que “de rico que era se tornou pobre”; que nunca atribuiu a si a gloria que Pai lhe deu. O futuro é dos humildes, não dos prepotentes, dos sabidos segundo a carne, dos espertalhões.

 

Bispo diocesano

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Dom Carmelo Scampa

Sejamos atletas

Sejamos atletas

 

            As Olimpíadas estão acontecendo em nosso país e, entre pontos positivos e negativos, devemos nos alegrar e buscar tirar um aprendizado, uma lição ou uma inspiração de tudo isso. Hoje, busquemos alguns pontos que possam mostrar a relação que existe entre a vida de fé do vocacionado com a de um atleta olímpico. Nós, jovens vocacionados, devemos ser verdadeiros atletas, como nos apresentou e recordamos o Texto Base da OSIB Nacional de janeiro de 2014: “Corramos com perseverança, com os olhos fixos em Jesus” (Hb 12, 1-2).

            O que temos que entender por primeiro é que todos nós somos vocacionados. Não são só os padres e as freiras. Todos nós somos chamados por Deus à vida, e, pelo batismo, chamados à santidade. Eis uma questão que muitas e muitas vezes se esclarece, mas se perde em meio a uma enxurrada de “coisas que temos para fazer e saber”. Acontece que, constantemente, nós, jovens, somos bombardeados por uma série de informações, imagens e ideias que muitas vezes mais atrapalham que ajudam. E é fundamental para um bom atleta se afastar, deixar de lado tudo aquilo que o atrapalha, – para nós que buscamos a santidade – sobretudo o pecado.

            Perseverança é uma prerrogativa na vida de um atleta. Não há atleta que chegue ao ouro sem perseverança. Não há santo que chegue ao céu sem perseverança. Não há vocacionado que consiga viver um frutuoso discipulado sem perseverança. Não podemos ser jovens que se deixam levar por qualquer sopro de modismo. Não podemos ser jovens fracos que desistem na metade do caminho e se dão por vencidos. Jesus, nosso Mestre e Senhor, nos chama a partir para a batalha desejosos de vencer, com os olhos fixos n’Ele. “Corramos com perseverança, com os olhos fixos em Jesus” (Cf. Hb 12,1-2). Ele é a nossa motivação maior para perseverar na vocação, buscar a santidade de vida e amar.

            O amor é a raiz da santidade, que primeiro se dirige ao Pai, e, consequentemente, no Filho, se estende a todas as pessoas, nossos irmãos. Ou seja, precisamos aprender a amar Jesus. Uma boa perspectiva talvez seja aprender a amar o Caminho, a Verdade e a Vida. Amar o Caminho é acolher com gratidão as dores, as decepções, o cansaço, o suor, as lágrimas, as fadigas… as paisagens, os ambientes, os nasceres e os pores do sol, a companhia… Afinal, Jesus abraçou sua cruz e “aprendeu o que significa a obediência, por aquilo que ele sofreu” (Hb 5,8) e entregou-se por amor.

            Amar a Verdade é mergulhar na essência da vocação. É abraçar a verdade da Revelação que se deu em Jesus Cristo, Filho único de Deus, nascido da Virgem Maria. É mergulhar no mistério de um Deus que se fez homem, semelhante em tudo a nós, seus irmãos (Cf. Hb 2,17), e, por isso, “tendo ele próprio sofrido ao ser provado, é capaz de socorrer os que agora sofrem a provação” (Hb 2,18). E amar a Vida é abrir-se à plenitude do que há de mais puro no primeiro chamado de Deus a nós. É entender que Deus não nos chamou à vida por acaso ou sem um propósito. É entender, como nos lembra o Papa Francisco, que “vocações são dons da misericórdia Divina”.

Meus irmãos, saibamos que na dinâmica da vocação o protagonista é sempre Deus, que chama, em vista de uma necessidade específica do seu povo, para o qual Ele sempre volta o seu olhar. E o vocacionado, finalmente, é aquele que responde a esse chamado. Por tudo isso, aos vocacionados do Senhor: sejamos santos atletas! Cresçamos na intimidade com aquele que nos chamou. Tenhamos a coragem de assumir nossos limites, mas sejamos ousados o suficiente para superá-los com perseverança, alegria e fé. Aceitemos, com Jesus, os aspectos dolorosos e difíceis da existência humana, e saboreemos com Ele a alegria da vitória e o ouro de uma vida bem vivida.

O céu não está distante de nós, mas precisamos querer, desejar, sonhar e trabalhar por ele. Movimente-se e veja Deus agindo na sua vida, nos seus músculos, pensamentos e sentimentos. Acolha a alegria de ser um escolhido de Deus para algo maior que nós mesmos. E, de modo especial, aos vocacionados ao Sacerdócio, sejamos conscientes de que se trata de um chamado radical de união com Jesus Cristo. “Ninguém – disse o papa Emérito Bento XVI – se faz sacerdote por si mesmo; só Deus me pode atrair, pode autorizar-me, pode induzir-me à participação no mistério de Cristo; só Deus pode entrar na minha vida e pegar-me pela mão”. Assim, em comparação aos que correm no estádio, corramos, nós vocacionados, de maneira a conseguirmos nosso prêmio. “Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível” (ICor 9,25).

 

 

laurito

Artigo: O Sínodo e a Família

Artigo: O Sínodo e a Família

Rio de Janeiro (RV*) – Estamos na última semana da XIV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que está ocorrendo entre os dias 4 e 25 de outubro de 2015, com o tema: “A vocação e a missão da família na igreja e no mundo contemporâneo”.

O tema “família” há muito tem sido aprofundado pela Igreja. Recordamos com carinho das palavras proféticas do Papa São João Paulo II: “o futuro da humanidade passa pela família”. Estamos em um momento histórico para o destino da humanidade e a grande questão tem sido a família. As discussões são enormes e apaixonadas. Mesmo no interior da Igreja se sente a tensão de ideias e ideologias.

Encontramos nas Escrituras Sagradas as orientações claras sobre a vida conjugal e a família. Depois vêm as discussões históricas e a Palavra de Jesus restaurando o plano de Deus.

Durante um mês, em 1980, tivemos a V Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Família: “A Missão da Família no mundo contemporâneo”. Depois de um ano, a 22 de novembro de 1981, o Papa João Paulo II publicou o documento pós-sinodal “Familiaris Consortio” como resultado dessas discussões.

Nesse documento o Papa assim inicia: “A Família nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem essa situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente a seus deveres ou, ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado último e da verdade da vida conjugal e familiar. Outras, por fim, estão impedidas por variadas situações de injustiça de realizarem os seus direitos fundamentais.”

“Consciente de que o matrimônio e a família constituem um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja quer fazer chegar a sua voz e oferecer a sua ajuda a quem, conhecendo já o valor do matrimônio e da família, procura vivê-lo fielmente; a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade, e a quem está impedido de viver livremente o próprio projeto familiar.” “Sustentando os primeiros, iluminando os segundos e ajudando os outros, a Igreja oferece o seu serviço a cada homem interessado nos caminhos do matrimônio e da família”.

Estamos comemorando neste ano os 50 anos da Instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI, e já estamos na XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, fora as três Assembleias Extraordinárias e as outras referentes a sínodos de regiões continentais.

É significativo que, logo depois da eleição para a Sé de Pedro, o Papa Francisco, ao ser perguntado sobre o tema para o Sínodo dos Bispos, tenha escolhido justamente o tema “família”. Isso representa a preocupação da Igreja com o momento atual em que, se de um lado procura encontrar meios para anunciar a vida em família como cristãos, ao mesmo tempo busca estar presente diante de tantas situações de dores que passam as pessoas em suas realidades familiares, assim como diante de vários modelos familiares que hoje se debatem na sociedade.

Para esse tema tivemos um aprofundamento gradual: o primeiro foi em fevereiro de 2014 durante o Consistório, quando o Cardeal Kasper expôs o tema ao Colégio Cardinalício e houve um belo aprofundamento do tema com as intervenções dos Cardeais.

Depois houve a convocação da III Assembleia Geral Extraordinária, que ocorreu em outubro de 2014 sobre o tema: “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da Evangelização”. Esse tema foi estudado por todas as Dioceses do mundo e depois, ao abrir a Assembleia Extraordinária, foi feito o relatório para o sínodo sobre as contribuições do mundo. Depois de 2 semanas de trabalhos, essa assembleia produimgziu um texto com propostas que foram votadas e apresentadas ao Santo Padre, que as mandou publicar e que servissem para o debate para o Sínodo do ano seguinte.

Esse texto foi enviado com perguntas, como sempre acontece, para todas as Dioceses do Mundo, que depois foi resumido no relatório na abertura deste Sínodo que agora está chegando ao seu final: a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos com o tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.

Um dos assuntos que chamou a atenção no ano passado foi a demora e os custos dos processos da nulidade matrimonial. O Papa Francisco constituiu uma comissão que examinou a questão e contribuiu para que encontrasse caminhos canônicos. Esse processo resultou na Carta Apostólica em forma de “Motu Proprio”, “Mitis Iudex Dominus Iesus” (O Senhor Jesus, manso Juiz), para a Igreja latina sobre a “reforma do processo canônico para as causas de declaração de nulidade do matrimônio no Código de Direito Canônico”. Foi feita outra para a Igreja Oriental, que possui Código Canônico próprio. Dessa forma ficou resolvida essa questão. Caberia agora ao Sínodo examinar outras questões sobre a vida e missão da família.

A inauguração do Sínodo sobre a Família foi feita pelo Papa Francisco no domingo, dia 4, com uma missa solene na Basílica de São Pedro, e nessa homilia ele refletiu a respeito de três aspectos: o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família.

Segundo o Papa: “a solidão, o drama que ainda hoje aflige muitos homens e mulheres. Penso nos idosos abandonados até pelos seus entes queridos e pelos próprios filhos; nos viúvos e nas viúvas; em tantos homens e mulheres deixados pela sua esposa ou pelo seu marido; em muitas pessoas que se sentem realmente sozinhas, não compreendidas nem escutadas; nos migrantes e prófugos que escapam de guerras e perseguições, e em tantos jovens vítimas da cultura do consumismo, do “usa e joga fora”, e da cultura do descarte. “Hoje vive-se o paradoxo dum mundo globalizado, onde vemos tantas habitações de luxo e arranha-céus, mas o calor da casa e da família é cada vez menor; muitos projetos ambiciosos, mas pouco tempo para viver aquilo que foi realizado; muitos meios sofisticados de diversão, mas há um vazio cada vez mais profundo no coração; tantos prazeres, mas pouco amor; tanta liberdade, mas pouca autonomia…” “Aumenta cada vez mais o número das pessoas que se sentem sozinhas, e também daquelas que se fecham no egoísmo, na melancolia, na violência destrutiva e na escravidão do prazer e do deus-dinheiro”.

O amor entre homem e mulher – “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 18). Estas palavras demonstram que nada torna tão feliz o coração do homem como um coração que lhe seja semelhante, lhe corresponda, o ame e o tire da solidão e de sentir-se só. Demonstram também que Deus não criou o ser humano para viver na tristeza ou para estar sozinho, mas para a felicidade, para partilhar o seu caminho com outra pessoa que lhe seja complementar; para viver a experiência maravilhosa do amor, isto é, amar e ser amado; e para ver o seu amor fecundo nos filhos, como diz o salmo que foi proclamado hoje (cf. Sl 128).

A família – “Pois bem. O que Deus uniu não o separe o homem” (Mc 10, 9). É uma exortação aos crentes para superar toda a forma de individualismo e de legalismo, que se esconde num egoísmo mesquinho e no medo de aderir ao significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus. “Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade. A Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade ao seu Mestre como voz que grita no deserto, para defender o amor fiel e encorajar as inúmeras famílias que vivem o seu matrimônio como um espaço onde se manifesta o amor divino; para defender a sacralidade da vida, de toda a vida; para defender a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da capacidade que o homem tem de amar seriamente”.

No dia 6 de outubro, o Padre Federico Lombardi, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, num encontro com os jornalistas informou que o Papa Francisco interveio brevemente na Assembleia Sinodal na sessão matinal daquela terça-feira, para afirmar que este Sínodo é uma continuidade em relação àquele que decorreu em 2014, durante o qual a doutrina católica sobre o matrimônio não foi modificada.

O Santo Padre evidenciou também os três documentos oficiais: a Relatio Synodi e os dois discursos pontifícios de abertura e de encerramento dos trabalhos. Um convite do Papa aos padres sinodais para não se deixarem confundir por comentários externos ao Sínodo. Vamos refletir um excerto das declarações do Padre Lombardi:

“Não nos devemos deixar condicionar e reduzir o nosso horizonte de trabalho neste Sínodo, como se o único problema fosse aquele da comunhão aos divorciados e recasados ou não. Portanto, ter presente a amplitude dos problemas e as questões que são propostas à Assembleia Sinodal, da qual o Instrumentum Laboris dá uma ampla perspectiva”.

Depois desses momentos iniciais, os temas foram livremente debatidos e o Papa salientou a importância da consulta do povo de Deus, porém, o Sínodo é sempre com Pedro e sob Pedro, deixando assim claro toda a questão sobre a doutrina da Igreja sobre o matrimônio.

No Domingo das Missões, dia 18 de outubro último, o Papa Francisco canonizou, entre outros, o casal Luís Martin e Maria Zélia Guérin, pais de Santa Teresinha. O Papa assim se referiu a eles em sua homilia: “Os santos esposos Luís Martin e Maria Zélia Guérin viveram o serviço cristão na família, construindo dia após dia um ambiente cheio de fé e amor; e, neste clima, germinaram as vocações das filhas, nomeadamente a de Santa Teresinha do Menino Jesus”. Ele, assim propôs o casal cristão chamado à santidade, como caminho para as situações atuais.

Neste Sínodo, com uma nova metodologia mais participativa, pois além das intervenções pessoais houve muito mais tempo para os “grupos de reflexão” ou “círculos menores”, os assuntos foram amplamente debatidos, inclusive os mais difíceis e polêmicos. A conclusão de um sínodo normalmente é a votação das proposições que servirão depois para a elaboração de um documento pós-sinodal sobre o tema. A importância do sínodo tem sido a de aprofundar os temas todos e debate-los livremente. Porém, como bem lembrou o Papa Francisco no seu discurso na comemoração dos 50 anos da Instituição do Sínodo: Sínodo, que é caminhar junto, supõe consultas, debates, escuta dos fiéis, porém agindo sempre “cum Petro e sub Petro” como “garantia da unidade”.

Agora que o Sínodo chega ao seu final (teremos a missa de encerramento neste domingo, dia 25 de outubro) com várias propostas, uma das quais é de delegar a uma comissão especializada as questões mais complexas, e entregando ao Papa as proposições que ajudarão a compor um documento pós-sinodal, somos chamados a olhar para frente e para a nossa responsabilidade. O sínodo suscitou muitas questões com relação à vida matrimonial, tanto na preocupação de uma séria preparação como também para ir ao encontro de tantos ferimentos por que a família passa, e que supõe uma presença da Igreja para acompanhar. A certeza de que a Igreja não esquece nenhum de seus filhos e procura, ao mesmo tempo, ser fiel ao Evangelho e também preocupada em ir ao encontro das famílias em todas as circunstâncias, ficou muito clara durante estas três semanas do Sínodo.

Por isso, com esse sínodo queremos estar unidos com toda a Igreja que caminha no mundo inteiro. Rezemos pelos resultados para que as proposições votadas possam iluminar ainda mais esse belo projeto de Deus na história da humanidade, que é a família, pois, rezamos pelas famílias e rezamos em família. Para nós é importante aprender, de todas essas discussões, a necessidade de estar atentos aos sinais dos tempos e acolher as iluminações do Espírito Santo para que possamos encontrar os caminhos para, como Igreja, nos colocarmos a serviço dos irmãos e irmãs de nosso tempo. Somos chamados a anunciar o Evangelho da alegria e da vida como Igreja samaritana que chega a todas as periferias existenciais, “primeireando” soluções nesta mudança de época. Eis o nosso grande desafio!

Aproveitando este mês do Rosário, que está chegando ao seu final, quando somos convidados a revitalizar a oração do mesmo, recordemos a famosa frase: “a família que reza unida, permanece unida”.

*Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Fonte: http://br.radiovaticana.va/news/2015/10/22/artigo_o_s%C3%ADnodo_e_a_fam%C3%ADlia/1181215

Missão nas Redes

Missão nas Redes

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine” [1].

 

Seguindo o nosso itinerário de textos que estabelecem uma reflexão acerca da missão, neste queremos adentrar no mundo digital, da comunicação. Somos convidados a falar a linguagem do Amor, do Evangelho, como nossa missão nas redes. Pois, como já disse Bento XVI: “se a Boa-Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance e da experiência de muitos que consideram importante esse espaço existencial.” [2].

A vivência nas redes sociais nos aproxima cada vez mais, é um lugar de nos encontrarmos com o outro de forma verdadeira e sem preconceitos. É o lugar de partilha de ideais, informações, opiniões e de experiências próprias. Às pessoas é dada a oportunidade de se sentirem mais próximas. “Precisamos harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito” [3], já dizia o papa Francisco.

Mas como cristãos, temos a missão de uma verdadeira cultura do encontro. Temos a oportunidade de ter uma voz contra as múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza. E para isso, nossa vivência nos meios de comunicação deve ressoar o Evangelho e o amor de Cristo. Precisamos da sabedoria na utilização das novas linguagens para termos a oportunidade de expressar a riqueza infinita do Evangelho dando-lhe formas de expressão que atinjam a mente e o coração de todos [4].

A igreja acolhe os meios de comunicação social como dons de Deus[5], na medida em que criam laços de solidariedade, de justiça e de fraternidade entre os homens[6]. As culturas do encontro e do diálogo são oportunidades para Evangelização. Na atual conjuntura, os homens necessitam do acolhimento e do amor da Palavra de Deus em seus corações.

O sábio uso dos meios de comunicação social é uma saída no mundo contemporâneo para a missão evangelizadora. É o lugar de mostrarmos a experiência e a atualidade da Palavra. Nosso testemunho nas redes sociais é imprescindível à existência no mundo digital.

Neilton Mendes

 

[1] 1Cor 13,1

[2] Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2013.

[3] Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014.

[4] Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2013.

[5] Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, Communio et progressio.

[6] Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil.

A missão do presbítero na Igreja

A missão do presbítero na Igreja

            Desde os primórdios da Igreja o Senhor Jesus Cristo chamou homens dispostos a deixarem de lado tudo o que possuíam para dar continuidade a missão deixada por Ele, contudo, este chamado perdura até os tempos atuais, mostrando assim, que a Igreja necessita de homens como estes para continuar sua missão.

            O presbítero é chamado por Deus para configurar-se in persona christi, isto é, ele deve ser reflexo de Cristo no meio das pessoas, manifestando sinais de humildade, caridade, simplicidade, autenticidade, transparência, e partilha com as pessoas, o que implica em seu ministério uma verdadeira entrega à obra de Cristo. Por isso, o ministério do presbítero existe em favor da Igreja. É para a promoção do exercício do sacerdócio comum de todo o Povo de Deus. Ordena-se não apenas para a Igreja particular, mas também para a Igreja universal, em comunhão com o bispo, com Pedro e sob a autoridade de Pedro. Mediando o sacerdócio do bispo, o presbítero incorpora-se na estrutura apostólica da Igreja. Deste modo, o presbítero deve dedicar-se inteiramente ao serviço e caridade pastoral a todas as pessoas que o procuram.

            O padre deve sempre colaborar para que a missão da Igreja seja cumprida, deste modo, ele é o primeiro agente da missão, deve sentir-se convidado a levar a Palavra de Deus a todos os povos, assim como o próprio Cristo disse: “ide e fazei discípulos meus todos os povos” (Mt 28,19). Ele jamais deve omitir a sua missão de anunciar, para isto, é importante que se sinta a vontade para sair de sua Diocese, fazer-se missionário em outros lugares necessitados de sua ajuda, entretanto, deve inculturar-se no meio do povo deixando de lado qualquer preconceito cultural que o afaste das pessoas. É essencial que o padre tenha toda a disponibilidade e abertura para ir ao encontro de todos. Fazendo-se irmão dos mais excluídos e daqueles que se encontram nas periferias existências, só assim, ele poderá encontrar o verdadeiro sentido de sua vocação e missão.

            Por fim, o verdadeiro missionário de Cristo é aquele que deixa transparecer a própria imagem do Senhor às pessoas, pois, através de sua simplicidade e alegria de servir dando o verdadeiro testemunho de um fiel missionário que ama a todos, deste modo, ele cativa as pessoas, vai atrás daquelas que estão perdidas e sentem a falta de Deus em suas vidas. Por isso, assim como afirma o Papa Francisco: “é preciso que saiamos dos centros urbanos para irmos às periferias”. Embasados na afirmação do Santo Padre é de suma importância que o presbítero assuma em seu coração e crie meios para cultivar o verdadeiro ardor missionário, levando aos povos necessitados o amor e a Palavra de Deus, a fim de que possam sentir-se acolhidos por Deus Pai. 

 

jânio

Missão

Missão

O mês de outubro, a Igreja, de forma solene, celebra o mês da missão. É neste período do ano, que são incentivadas e realizadas várias campanhas e empreendimentos que visam uma maior conscientização missionária. Todos nós, no momento em que fomos batizados, somos constantemente, de forma assídua, convocados a sermos embaixadores que anunciam o nome de Cristo em toda e qualquer circunstância. Essa ardorosa tarefa, que o próprio Cristo nos confiou, não compete somente aos bispos, padres e religiosos(as). E sim, também, a todos nós, que temos a responsabilidade de anunciar e concretizar o Reino de Deus.

A Igreja por sua natureza é missionária (Ad Gentes). De fato, ela é convidada com total zelo e amor, a cada momento, escutar aquela voz, provinda do próprio Jesus, que ressoa, constantemente, em seus ouvidos: “Ide, por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). Eis aqui, a missão fundamental da Igreja: plantar e anunciar esta semente de esperança em todos os corações.

Mas, a missão só acontece, quando nos tornamos dóceis a esta voz que ecoa e que nos é transmitida pelo próprio Espírito Santo que reanima e vivifica a Igreja. De fato, a missão é sair de si mesmo, das nossas comodidades, e ir à busca daquele irmão que tanto necessita. É, por meio de um transformar-se de si, que torna o nosso “amor afetivo em amor efetivo” (São João da Calábria) que visa o serviço de anunciar e acolher todo aquele que queira ser um discípulo de Jesus. Enfim, Deus quer a participação de todos os seus filhos em sua obra salvífica. Quer revelar e compartilhar a sua Boa Nova a todas as criaturas. A missão evangelizadora é levar a luz, a paz e alegria do Cristo Ressuscitado.

Assim, é de suma importância, destacar que a missão não se sucede em um determinado limite de tempo; ao contrário, a missão evangelizadora é esta ação cotidiana que atualiza constantemente a presença do Cristo Ressuscitado que está no meio de nós. Portanto, anunciemos, não só no mês de Outubro, mas em toda a nossa caminhada as maravilhas que Deus nos revelou.

São Francisco Xavier e Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós.

 

 modelo escritores Diovane

 

 

A Palavra de Deus para nós

A Palavra de Deus para nós

“No princípio era Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus” (Jo 1,1).

Tradicionalmente no Brasil no mês de setembro se recorda com maior destaque a Sagrada Escritura, dedicando esse mês ao tema da Bíblia. Nas liturgias se dá destaque ao Livro Sagrado, seja colocando-o mais em evidência, seja com as procissões e danças ao redor desse Bíblia. Nos encontros comunitários eclesiais de toda espécie se costuma, neste mês, privilegiar a leitura e a escuta da Palavra de Deus. Tudo isso tem o seu valor, pois nos recorda que, como católicos, somos precedidos de uma Palavra que era, que é e que será (cf. Hb 13,8). O que é a Palavra de Deus para nós, como a vemos?

1. A Palavra é criadora. A Palavra de Deus precede a tudo, inclusive o cosmos. De fato, na origem, no princípio, há somente a Palavra que se identifica com Deus, e com a Palavra tudo vem à existência. “E Deus disse: faça-se…” (Gn 1,3). “Tudo foi feito por meio Dela e sem Ela nada foi feito” (Jo 1,3). A Palavra de Deus é onipotente, é criadora.

2. A Palavra de Deus é reveladora. “Muitas vezes de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual fez os séculos. Deus se comunica, se revela, deseja entrar em comunhão conosco para que tenhamos Vida divina. Com muita fineza se expressou o Magistério por meio da Dei Verbum n. 2: “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2 Pd 1,4). Divinae Naturae Consortes, isto é participantes da natureza divina! Eis o propósito da Auto comunicação divina.

3. A Palavra de Deus é fecundante. “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, dando sementes ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a Palavra que sai da minha boca: ela não tona a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei” (Is 55,10-11).

4. A Palavra de Deus é Luz. O Salmo 119 proclama: “Lâmpada para meus pés é a Tua Palavra, e Luz para meu caminho”. O quarto Evangelista assevera: “in ipso vita erat et vita erat lux hominum”, isto é, “Nele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens” (Jo 1,4). Ao falar do livro dos preceitos de Deus, isto é, da Lei, o profeta Baruc exorta: “Volta-te, Jacó, para recebe-la; caminha para o esplendor, ao encontro da sua luz” (Br 4,2). E o próprio Cristo dirá de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

5. A Palavra de Deus é Cristo. “E a Palavra se fez carne e armou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14).  No Primeiro Testamento Deus se fez presente de forma temível na Tenda da Reunião (Ex 25,8; 40,35) ou de forma intangível na Sabedoria de Israel pela Tôrah. De fato, a Sabedoria diz de si mesma: “A minha lembrança é mais doce do que o mel, minha herança mais doce do que o favo de mel. Os que me comem terão ainda mais fome, os que me bebem terão ainda mais sede. O que me obedece não se envergonhará, os que fazem as minhas obras não pecarão. Tudo isto é o livro da aliança do Deus Altíssimo, a Lei que Moisés promulgou…” (Eclo, 24,20-23). Mas em Cristo, a Palavra é visível, palpável. “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos próprios, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam da Palavra da Vida…” (1Jo 1,1).

6. A Palavra de Deus, em nós, é a lei da caridade de Cristo que nos santifica e dá vida. “As palavras que eu vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6,63). “De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que ele santifica. É isto o que também nos atesta o Espírito Santo, porque, depois de ter dito: Eis a aliança que farei para eles, depois daqueles dias, o Senhor declara: Ponho as minhas leis nos seus corações e inscrevendo-as na sua mente, não me lembrarei mais dos seus pecados, nem das suas iniquidades” (Hb 10,14-17).

Eis alguns aspectos da Palavra de Deus, os quais mostra o seu valor e o quanto devemos apreciá-la, como um verdadeiro presente de Deus. Em última instância, a Palavra de Deus é uma Pessoa, Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus para nós. A Sagrada Escritura como texto inspirado é um registro sagrado que se for meditado põe-nos em comunhão com Deus através de Jesus Cristo, na virtude do Espírito. O mês da Bíblia é um apelo a cada cristão a meditar e ruminar a Palavra, na certeza de que Ela é Palavra criadora, capaz de nos recriar; Ela é reveladora, capaz de nos mostrar o rosto misericordioso de Deus; Ela é fecundante em nós, capaz gerar vida nova em quem a recebe; Ela é luz, capaz de iluminar o caminho de quem anda nas trevas, sem sentido de vida; Ela é o próprio Cristo e por isso meditar a Sagrada Escritura nos faz ver o rosto de Cristo; Ela é a virtude de Deus que nos santifica e dá a Vida verdadeira.

Pe. Mariosan de Sousa Marques.

CALAR-SE DIANTE DO MISTÉRIO

CALAR-SE DIANTE DO MISTÉRIO

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Foto: D.R.  – Santuário Divino Pai Eterno / Trindade-GO

  Convidaram-me a escrever sobre a arte de compor. Interessante, já li muita coisa sobre o assunto, em pouca experiência de vida. Noto que existem palavras direcionadas ao letrista/poeta e existem palavras próprias ao músico/compositor. É um universo da linguagem que parte da questão textual – bíblica – à “rima”. Um mundo musical que vem da própria palavra litúrgica a uma qualidade harmônico-sonora. Ir. Miria T. Kolling, em seu artigo – “O ministério dos compositores”[1] – já nos agraciou bastante sobre esse assunto. Às vezes caímos na tentação de fazer nossas leituras procurando nos textos os métodos práticos para desenvolver tal ofício. Insiste: É preciso de vivência de comunidade! Como os próprios documentos da CNBB[2] tem se preocupado bastante. Alguns já me perguntaram como compor… Estive refletindo e digo que não é só viver e celebrar na comunidade. Só isso, nem sempre nos faz um bom compositor, músico ou poeta. Na maioria das vezes é preciso aprender a “calar”. Talvez o mais difícil!

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Foto: Diuan Feltrin – Paróquia Imaculada Conceição / Birigui-SP

Estamos num tempo “misterioso”! Às vezes cercado de muito barulho, em que nós somos os sujeitos ativos de tal fenômeno. O ambiente a nossa volta está poluído de falas, de gestos… Onde o ‘silêncio’ na vida se torna sinônimo de ‘solidão’. Em casa após o trabalho, ligamos a TV, o rádio, a Internet, entre outros meios para não sentirmos sozinhos, mesmo em meio às outras pessoas. Viajamos para lindos lugares, encontramos grandes famosos, deparamos com situações inusitadas… Mas não vivemos ou escutamos aquele momento procurando extrair o máximo de suas riquezas. Simplesmente, tiramos foto. Fotos que instantaneamente são postadas em redes sociais. Estas quando muito curtidas/compartilhadas, revelam sinais de que valeu a pena aquela situação ou lugar. Sim, interessante! No entanto, para compor é preciso ir além desta vivência do mundo em que somos assediados a viver na comunidade.

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Foto: Diuan Feltrin – Paróquia Imaculada Conceição / Birigui-SP

Quando simplesmente obervamos e descrevemos o mistério num papel, corremos o sério risco de empobrecê-lo, reduzi-lo, entre outros perigos que se dão por um contato superficial. Existem sentimentos que brotam do momento, talvez pela quantidade de pessoas, ou a força da palavra ou até mesmo pela vibração da comunidade. Mas, isso não é ainda o néctar da manifestação mistérica. É preciso olhar e sentir além. Este exercício se dá com o silêncio. É preciso calar-se diante do mistério e deixar ser interpelado. Não estou falando de um ritual mágico, aonde tudo vai acontecendo sem você se dar conta, com um brilho místico, de luzes e sons.  Não! É algo mais comum, muito simples. De tão simples é inexplicável. E aí nos damos conta que o mistério celebrado não cabe numa pauta. Mas, tentamos em nossa fragilidade expressar o que vimos, sentimos e ouvimos.

O mistério na liturgia nos convida a ver – Ele se dá a nós, se manifesta, ele se releva aos nossos olhos, no modo em que nós podemos o compreender; O mistério nos convida a sentir – Ele se faz presente aos sentidos, de um modo muito íntimo e também comunitário. Não me perguntem como senti-lo! Mas, acredito que a cada um, nas possibilidades de cada pessoa, Ele se manifesta a fim de fazer próximo à vida. Por fim, o mistério nos clama a ouvir – Ele quer “falar”, sempre tem algo a dizer… É o momento em que o Espírito que fala em nós. Talvez um modo de se revelar, porque Ele sabe o como e o que dizer a nós. Este último talvez seja a parte mais difícil: aprender a calar. Um silêncio que não é vazio, mas cheio de significado. Um silêncio que se faz em letra e música na vida do compositor. É aqui, neste momento que o Espírito age frutuosamente na missão do poeta/músico.

Por que se calar? Porque o compositor não escreverá para si, ou de si mesmo ou a partir de si… Sempre sobre o Mistério: Deus! Sendo assim, o que escrever? Os sentimentos? Não. Sentimentum, do latim, quer dizer opinião, uma afeição ligada ao sentir. Se a música (poesia e melodia) é um condutor que leva a comunidade à vivência do Mistério, nada melhor do que ela estar intimamente ligada ao próprio Mistério.  Por isso, o uso da Sagrada Escritura, lugar onde Ele se revela intimamente a nós. Bem, mas este seria outro assunto.

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Fotos: Diuan Feltrin – Paróquia Imaculada Conceição / Birigui-SP

Por ora, reflitamos: Como me coloco diante do Mistério celebrado? Eu sei me calar? Quando sei que posso falar do Mistério? Neste tempo atual, é fácil encontrar-me com o Mistério? Quais são as minhas experiências? Se você compõe, como você descreveria sua experiência/ministério? Sabia que também para cantar qualquer música é importante se calar diante dela? Já fez essa experiência?

Sugestão de leitura sobre o silêncio: O Silêncio na liturgia: sonoridade de Deus, de Pe. Fernando N. Gioia. Disponível em:

http://www.acnsf.org.br/article/7764/O-silencio-na-Liturgia–a-sonoridade-de-Deus.html

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[1]Disponível em: http://www.a12.com/musica/formacao/detalhes/o-ministerio-dos-compositores. Acessado em 12/07/2015.

[2] Por exemplo, cf. Doc. 79 – A Música Litúrgica no Brasil

Liturgia e Simplicidade de Vida

Liturgia e Simplicidade de Vida

1518813_785093718195744_6340400242255482016_oNesses dias, ao ouvir e meditar sobre as leituras da liturgia pensava o quão “difícil” é ser cristão. Sim, é difícil! Mas, ao mesmo tempo é algo tão simples. É só lançar o olhar para as primeiras comunidades e para os primeiros cristãos descritos no livro dos Atos dos Apóstolos e na Patrística que nos convencemos.

A mística pascal não nos permite olhar para um cristianismo isolado, perdido em si mesmo, em suas próprias alegrias, tristezas e esperanças. É sempre uma vida em comum, fundamentada na simplicidade da Boa nova.

Nota-se que aquela vida chamada de “humilde”, “pacata” e interiorana, está se tornando raridade. Estamos dentro de grandes centros urbanos ou de pequenas cidades maquiadas de grandes cidades. E o povo… Pois bem, alguns se empenham na procura da feliz realização. Outros, dias após dia constatam a velocidade em que o tempo passa – e estes são a maioria. Neste entremeio, percebo três tipos de igreja (comunidade):

1) Às vezes, quando saímos de algumas Igrejas, somos convencidos com a experiência de Adélia Prado. São tantos barulhos, tantos gritos, tantas palavras cabulosas… Saímos com vontade de rezar tudo de novo, de procurar outra Igreja, de “procurar” viver o sacramento novamente.

2) Há outras comunidades que são opostas, com leituras bem proclamadas, cantos bem interpretados, uma presidência muito bem preparada… Mas, fria, “vazia”, sem expressão e dinamicidade.10862694_815903298450944_3217039439663878624_o

3) Contudo, também existem comunidades vivas e cheias de simplicidade de fé. Comunidades que já tive a oportunidade de ver e com o coração pude concelebrar. São nestas comunidades que temos a certeza da “alegria do Evangelho”, na ação do Espírito de Deus. Como ouvi de Fr. Fernando Inácio, OFM: “toda Igreja deve ter um Pentecostes!” Isto significa uma comunidade aberta à dinamicidade do Espírito, que é vivificador. Por isso, acredito que toda comunidade deveria receber no âmago da sua existência a graça divina, proveniente da ação do Espírito Santo. 

Viver na graça de Deus é muito mais que se reunir semanalmente para celebrar a Palavra e a Eucaristia. A comunidade quando vive na graça de Deus, acolhe ser imagem do Filho, Jesus Cristo. Manifesta na claridade as suas escolhas, até o dia em que ela deixará de peregrinar nesta terra e será glorificada, junto de Deus.

Por isso, todo aquele que nasce de Deus – o cristão – tem uma sublime missão: celebrar o mistério da fé. Um celebrar que se dá na vida da Igreja, unida a Cristo Cabeça, que é a nossa vida. O que levar para as celebrações? Cada membro da comunidade deve levar para a reunião litúrgica a sua fé, saborosa e viva, que tem o perfume da vida comum. É tudo isso que enriquece a “degustação” da Palavra e da Eucaristia. É difícil? Sim, mas tão simples! Na verdade, é o Senhor quem nos convida, nos reúne e nos prepara. Somente temos que levar um coração aberto e disponível à graça. Simples assim!

Feliz Páscoa!
Abração musical de,

wallison

 

 

 

Fonte: http://www.a12.com/musica/formacao/detalhes/liturgia-e-simplicidade-de-vida